Número 36 . Novembro 2010
Entrevista ao Eng. António Mota
no Diário Económico

 "País precisa de uma maioria absoluta"

Crítico da falta de ambição de Portugal, defende um novo Governo de maioria e confessa gostar de José Sócrates.

António Mota está cansado da discussão em torno dos grandes projectos como o TGV e o novo aeroporto. "Andam a brincar com o sector da construção", diz o patriarca do grupo Mota-Engil. Sem nunca pronunciar o nome do PSD, deixa perceber o seu distanciamento ao criticar quem propôs o TGV e está agora na oposição a criticá-lo.

A decisão de reforçar e acelerar a internacionalização da Mota-Engil resulta de uma desconfiança face ao futuro do País?

A nossa ambição é crescer e diversificar, por isso tínhamos obrigatoriamente que internacionalizar o grupo Mota-Engil, mas este país podia fazer muito mais do que está a fazer. Continuamos a discutir as mesmas coisas durante anos....

Está a falar do TGV, onde o grupo tem interesses assumidos?

É verdade. Não se entende... Não é uma questão saber se o TGV é exequível ou não e ninguém tem dúvidas que se paga. Também se sabe que o seu custo tem de ser assumido não apenas por esta geração mas pela próxima também. E é um projecto aprovado por um Governo que, agora, na oposição, afirma que não deve ser feito.

Faz sentido pôr em causa o projecto do TGV?

A obra é financiável a larguíssimo prazo, hoje, é certo, com condições mais difíceis do que há um ano ou dois. A situação do mercado é mais difícil hoje, mas o mercado vai ter de mudar, a estabilidade vai ter de chegar e a crise há-de ser ultrapassada. A alta velocidade é estruturante para o futuro do País. Para mim, construtor, tanto faz se o traçado do TGV segue pela esquerda ou pela direita, sei é que acabará por ser feito e será uma construtora a fazê-lo, não sei se será a minha.

A questão é saber se é viável do ponto de vista financeiro...

Se é exequível ... é viável do ponto de vista financeiro com um pressuposto: quem vai pagar o TGV é quem o vai utilizar, portanto, esta geração e a próxima.

Quantos anos serão necessários para pagar o TGV?

É um projecto que se paga em 40 anos. Há uma comparticipação financeira da União Europeia que se pode perder. Se o TGV não for feito, vamos continuar a gastar dinheiro na linha do Norte para nada...

O momento de crise não justifica um adiamento de projectos como o TGV ou o novo aeroporto?

As pessoas estão à espera que a crise dure dez anos? Gostava que os políticos dissessem se consideram que Portugal não está pronto para ter um projecto como o TGV daqui a dez anos... Se assim for, então tenho de pensar em ir-me embora. Há cerca de dois anos, os construtores entregaram um dossier ao primeiro-ministro José Sócrates com uma visão sobre o futuro do sector e do país. Fizemo-lo, também, com o maior partido da oposição. Não podemos só pensar nos outros sectores, é preciso também pensar na construção.

O sector é mal-amado?

Não sei se é odiado ou mal amado. O sector da construção representa muita gente.

Mas porque que é mal amado?

Há a ideia de que todos os vigaristas estão no sector da construção. Não é verdade, estão em todos os sítios. Nós, sector da construção, representamos muito emprego em Portugal. O sector da construção representa muita gente e não podemos andar a brincar.... Andam a brincar com o sector da construção. Não se pode dizer que num dia há o projecto do TGV e no seguinte já não há. Ou uma auto-estrada é importante num dia e deixa de o ser no dia seguinte... Faz-se o aeroporto num lado e depois já não é...

Essas mudanças resultam de quê?

Há muita politiquice no meio disto tudo. Até compreendo que as pessoas possam suscitar a discussão sobre a construção do TGV hoje ou dentro de dois anos... Na minha opinião, o TGV deve ser construído hoje. Já não compreendo que se discuta se deve ou não ser feito, se vai pela esquerda ou pela direita. Estamos a discutir a alta velocidade há 12 anos, falamos do novo aeroporto há 30 anos.

O grupo tem tido dificuldades em conseguir financiamento para os seus projectos?

Vencemos muitos concursos no estrangeiro e, até este momento, tem sido possível montar todos os financiamentos para todas as concessões onde participamos em condições exequíveis para que o projecto mantenha o interesse. Esta dificuldade não existe, mas as condições financeiras são mais gravosas.

Sente que o país está num momento crítico?

No país há um conjunto de questões que tem de ser clarificadas.

Quais são as questões que mais o preocupam?

As pessoas estão com uma falta de confiança enorme e têm de a ganhar. E ganhar confiança não é questionar tudo. Há questões políticas, que não quero especificar, que têm de ser urgentemente resolvidas e clarificadas, de uma vez por todas.

Está a falar do caso Freeport, que afecta o primeiro-ministro?

Não quero falar sobre isso, apenas digo que é preciso pôr fim a esta discussão.

Como empresário, sente que deve haver uma definição estratégica do que se quer para o país? Portugal teve um Governo de maioria absoluta, mas, pelas suas palavras, isso não foi suficiente.

Não concordo. Quando este Governo entrou em funções disse que ia fazer reformas e fez: na educação, que os professores podem não gostar, mas que é muito importante; na Segurança Social, com efeitos para as próximas décadas; e nas obras públicas anunciou o investimento no aeroporto, na alta-velocidade e a realização do novo plano rodoviário. Os concursos estão todos lançados...

Caso não saia um Governo de maioria nas próximas legislativas, os riscos serão ainda maiores?

Este país tem de ser governado por um Governo de maioria absoluta ou por uma coligação que dê maioria absoluta. Se me pergunta se eu acho que este país está em condições de ser governado por um Governo minoritário, respondo que não está. Ou existe a estabilidade de um Governo de maioria absoluta ou não funciona.

Já percebi que gosta do primeiro-ministro...

Eu gosto deste primeiro-ministro. Obviamente, respeito a opinião das outras pessoas, agora ele não pode estar sujeito a todas estas críticas.

Os bancos são para o grupo Mota-Engil um parceiro ou um adversário?

O que pretendemos é que os bancos sejam efectivamente parceiros. Nem sempre é possível, às vezes há um choque. Mas a banca acredita em nós. Não estamos com receio. Temos confiança no nosso projecto e a certeza que a crise vai ser ultrapassada. Sentimo-la hoje, mas conseguimos navegar e ter boa saúde, apesar da crise que nos está a passar um bocadinho ao lado. Se isto demorar mais de dez anos, como alguns dizem, não fica cá ninguém. Acredito que este país tem solução. Mas podíamos aproveitar mais oportunidades para recuperar algum do atraso que temos.

Subscreve a política de apoio à banca?

Os governos de todo o mundo são irresponsáveis? Estão todos a fazer a mesma coisa: apoiar a banca. A população tem de ter confiança, porque é um momento difícil e as medidas têm que ser estas.

"A nossa ambição não é continuar apenas a ser líder em Portugal"

A dinâmica e dimensão da Mota-Engil levou à profissionalização da liderança. António Mota garante que ambição passa por pertencer à primeira liga ibérica e ao 'top' 40 da Europa.

Um ano após ter passado o testemunho da gestão executiva a Jorge Coelho, António Mota fala sobre a sua opção pela profissionalização do grupo. Justifica-a com o próprio crescimento da empresa e a esperança de que dentro de década e meia as futuras gerações  da Mota-Engil possam chegar ao poder do grupo. No futuro, quer ver o grupo a dar cartas a nível ibérico e europeu.

Faz um ano que saiu da presidência executiva. Dá-se por satisfeito com os resultados?

Estas apostas devem ser feitas no momento em que existe vontade dos dois lados e quando é encontrada a pessoa certa. O meu convite tinha já cerca de um ano. O Dr. Jorge Coelho demorou o tempo que considerou necessário para ponderar se aceitava ou não. Fiquei muito feliz por ter aceite e isso foi necessário para criar as condições para ser aquele o momento certo. Aquilo que foi feito ao longo do tempo, e desculpe a imodéstia, não foi mal feito. Estava, era, na altura de entrar uma nova ambição e uma liderança que tivesse o mesmo coração, mas fosse mais profissional.

Como é a convivência com essa profissionalização?

A Mota-Engil precisava desta profissionalização por duas razões: primeiro, porque o crescimento da empresa o exigiria. Segundo, porque espero que, daqui a 15 anos, a segunda ou terceira geração da família possa um dia chegar ao poder no grupo. É essencial que as empresas com a dinâmica e dimensão da Mota-Engil façam as transições de forma profissional, não de geração em geração. Caminho que percebo nas empresas de pequena dimensão onde toda a gente se conhece.

Não sente dificuldade no dia-a-dia de resistir à tentação de "voltar" à gestão executiva?

Já há algum tempo que a minha participação na gestão era mais no plano estratégico. Contínuo activo, apesar de não ser executivo. Visito mais as obras e tenho falado mais com as pessoas.

É quase um regresso ao passado?

Sim. Converso muito com o Dr. Jorge Coelho. Mas é ele que faz a gestão executiva. Falamos de partes estratégicas ou de alguma questão que eu já tenha vivido na casa. Toda esta transição é fácil porque foram os accionistas que a quiseram, foi de livre vontade e ninguém nos empurrou. E depois porque o Dr. Jorge Coelho é um homem de uma craveira excepcional em todos os âmbitos.

Passado um ano, assentou a poeira sobre a nomeação de Jorge Coelho...

Aquilo não era poeira nenhuma, mas sim ciúmes por ele [Jorge Coelho] ter escolhido a Mota-Engil.

Jorge Coelho apresentou o plano "Ambição 2013". O que espera que o grupo Mota-Engil venha a ser?

A entrada de Jorge Coelho trouxe uma nova ambição, uma ambição diferente, que eu espero que seja melhor do que a anterior, porque sou tão ambicioso quanto isso. Em 2013, espero que o grupo continue a ser humanista, virado para as pessoas, e que seja uma empresa com um equilíbrio bem maior do que é hoje dentro das várias áreas de negócio: multiserviços, mas onde a predominância da construção não seja tão significativa. E, depois, espero que sejamos um parceiro europeu. A nossa ambição não é continuar apenas a ser líder em Portugal, porque issojá atingimos. É também pertencer à primeira liga ibérica e estarmos no top 40 da Europa.

Entrevista gentilmente cedida pelo Diário Económico

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